Quando é a hora de dizer adeus ao passado e seguir em frente

Quando é a hora de dizer adeus ao passado e seguir em frente
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Nós descobrimos o quão forte somos nos momentos de incerteza que a vida inevitavelmente nos dá. Os eventos não planejados – demissões, morte, doença ou divórcio – podem acontecer em nosso mundo a qualquer momento. Em seguida, as questionáveis mudanças de vida surgem. Devo ficar ou devo ir? Devo comprar ou guardar? Devo perdoar ou esquecer? Devo me mover ou não? Os “devos” tornam-se um empecilho ao tentarmos alcançar o melhor resultado para a nossa vida.

A vida é um equilíbrio entre segurar e deixar ir. Nós nos esforçamos para fazer a escolha certa, mas como vamos saber quando é realmente hora de deixar ir e seguir em frente? As relações amorosas, trabalhos, até mesmo lugares em que vivemos tem uma data de validade. Às vezes nos apegamos a coisas que não estão funcionando por medo de não encontrarmos algo melhor.

Talvez o nosso maior medo seja o desconhecido, por isso muitos de nós manipulamos nossas situações tentando controlar nosso entorno. Mas o resultado é sempre o mesmo: mais dor, imensa frustração e culpa.

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O que é apego?

o apego é uma relação afetiva e duradoura que se estabelece entre o bebê e sua mãe, ou quem quer que cuide dele. Dependendo de como esse vínculo é, o tal apego poderá ser de alguns tipos distintos. Quando a mãe atende às necessidades físicas e psicológicas do bebê, desenvolve-se o apego chamado de seguro. Isso significa que, mesmo quando separados de sua mãe, as crianças podem ser rapidamente reconfortadas para que fiquem tranquilas novamente.

Existe também o chamado apego inseguro. Nesse caso, quando a criança se vê sozinha, entra em um estado de angústia e tem dificuldades para voltar a se acalmar, mesmo com o retorno da presença da mãe. Ou ainda, o bebê pode recusar o conforto materno, deixando de lado a segurança que a mãe poderia dar.

Psicóloga clínica e especialista na Teoria do Apego, Luciana Ortiga explica que esse tipo de apego se forma no primeiro ano de vida, mas isso não determina o futuro de nossas relações. “Elas vão depender não só do apego formado na infância, mas também de variáveis que nos cercam, como a personalidade e o temperamento, entre outras.” A explicação, portanto, não está só nesse começo de vida, já que o apego não é imutável.

Não só a psicologia pode explicar esse fenômeno humano. A neurociência mostra que o apego é um artifício usado pelos humanos para garantir sua sobrevivência. Como nascemos frágeis e sem a capacidade de conseguir comida ou proteção sozinhos, dependemos dos cuidados de nossos pais para viver os primeiros anos de vida.

A infância é uma época de experimentações genéticas e sociais, segundo o que diz Louis Cozolino, especialista em neurociência da Universidade Pepperdine (EUA). Começa aí a formação de nosso cérebro. Aprendemos a decifrar as mensagens não-verbais de nossos pais e, portanto, a sermos seres sociais.

De novo, isso não significa que estamos fadados a repetir o que aconteceu na infância. Já se sabe que, mesmo condicionado a repetir o que está fixado pelo aprendizado, o cérebro humano é capaz de criar novos caminhos neurais.

Ou seja, somos capazes não só de aprender fatos e habilidades novas, mas também conseguimos nos reprogramar emocionalmente. Cozolino afirma que é nisso que se baseia a psicoterapia e que os analistas podem nos ajudar a contrabalancear as escolhas menos brilhantes que nossa natureza fez por nós.

Segurança que prende

Se o apego é uma característica psicológica e neurológica normal do ser humano, como é que ele se torna um problema nos adultos? Isso acontece quando o apego nos torna incapazes de seguir em frente, de conseguir causar em nós mesmos as transformações que sabemos ser necessárias.

Como os nossos personagens Rob e Ryan, que entram em conflito com pessoas próximas porque não querem mudar e sair de suas rotinas. Ou como você, que não consegue se envolver em um novo relacionamento porque está preso em um romance do passado. Como chegamos a esse ponto?

Pistas podem ser achadas no texto “As etapas da vida humana”, do suíço Carl Gustav Jung (1875-1961), fundador da chamada psicologia analítica e seguidor de Sigmund Freud. Jung identifica um momento essencial na vida humana que causa medo e insegurança: quando nos vemos sozinhos com as decisões que nossos pais costumavam tomar por nós. Antes, tínhamos a liberdade de não pensar em problemas e dilemas.

Uma vez adultos, a vida impõe exigências que interrompem nosso sonho de sermos eternas crianças, de acordo com Jung. Sem explicar em detalhes como é a melhor maneira de fazer essa transição, ele afirma que os indivíduos preparados conseguem sair relativamente ilesos de um potencial trauma. Nem todos, obviamente, lidam bem com uma mudança desse calibre.

Difícil desapego

Mas como conseguir abrir mão de algo que nos parece tão importante, tão essencial e, finalmente, enxergar novos caminhos? “A realidade é um fluxo ao qual é impossível se apegar. Não há nada seguro nesse mundo”, responde a monja Coen, Fundadora da Comunidade Zen Budista em São Paulo (SP). Ela usa uma metáfora simples para resumir o assunto: o apego é como pedir um sorvete e não tomar. Queremos ter a posse de algo que não pode ser facilmente guardado, que logo se tornará inútil e perderá sua função.

Quem me navega é o mar

A próxima pergunta é: Como? Carl Jung diz que não existe uma universidade que nos prepare para o mundo e a vida adulta, portanto, a dificuldade é grande. Mas ele não se furta a dar uma dica: “É melhor seguir em frente, acompanhando o curso do tempo, que marchar para trás e contra o tempo”.

Uma vida mais saudável é aquela que se volta para um objetivo que faça com que nosso movimento siga em frente, olhando para o que está à nossa volta e permitindo que sejamos transformados. Exercitar o desapego é saber mudar sem deixar de lado nossa essência.

Quando estamos focados apenas em nós mesmos, só conseguimos ver e sentir nossos problemas e achamos que eles são os maiores de todo o mundo. A monja Coen sugere um exercício para começar a entender o que é desapegar-se. “Basta olhar para o céu, para o mar, para a imensidão. Somos um planeta mínimo, e somos muito pequenos”.

Somos um barco navegando pelo mar, sem dúvida. Sujeitos aos humores do imprevisível e frágeis frente a um mundo inteiro grávido do desconhecido.

Mas, se não tentarmos, nunca deixaremos nosso barco sequer sair do porto seguro de nossos apegos. De quando em quando, claro, é necessário parar em águas mais calmas e descansar. Só que, se nunca deixarmos o mar nos levar, nunca saberemos o que há além de nós mesmos. Singrando pela vida, exercitando o desapego, saberemos que, como diz Paulinho da Viola, a onda que nos carrega é a mesma que nos traz.

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